Revista Carta Capital

04 de Maio de 2005 - Ano XI - Número

Especial Saúde

 

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ALÉM DO HORIZONTE

TRANSFORMAR ESTUDANTES EM CIDADÃOS

Um programa da Escola Paulista em parceria com o Corpo de Bombeiros de São Paulo ensina os alunos de medicina a reduzir os riscos de seqüelas e morte em decorrência de trauma.

 

Cem mil vítimas por ano. A maior causa de morte de pessoas jovens, em idade produtiva. Um sem-número de seqüelas, desde estéticas até amputações e perda de membros.

 

Estudos realizados na última década, nas universidades americanas, mostram claramente que o trauma, nas suas variadas modalidades, é cada vez mais o responsável pela perda de vidas de maneira trágica.

 

Modelos foram criados para evitá-lo e melhorar o seu tratamento quando o doente chega aos centros avançados. Criaram-se cursos especiais de treinamento de médicos socorristas, como o Advanced Trauma Life Support (ATLS), que nitidamente ajudou os médicos da linha de frente, nos pronto-socorros, a organizar e prestar atendimento com qualidade.
 

Figueiredo.
“O importante é prevenir mortes e acidentes”

Ao mesmo tempo, os estudos mostraram que ainda existe uma brecha: o atendimento ao politraumatizado no local do acidente.

Mortes e mutilações podem e devem ser evitadas.

Para isso foram criados os serviços paramédicos especializados.

No Brasil, surgiu o Resgate, com treinamento do Corpo de Bombeiros, para atendimento ao traumatizado. É muito eficiente nessa tarefa. Mas, recentemente, surgiu uma idéia interessante que pode aumentar ainda mais a eficiência do atendimento a vítimas de trauma antes da chegada dos paramédicos.

 

Trata-se de ensinar estudantes de medicina (que ainda não são médicos) a prestar atendimento de forma adequada para reduzir a um mínimo a chance de seqüelas graves, irreversíveis, ou até a morte. Mais importante, ensinar esses alunos a proteger o socorrista. Muitas pessoas morrem tentando ajudar os outros e nada pode ser mais trágico do que isso.

O programa é uma iniciativa do Dr. Luís Poli Figueiredo, professor titular de Técnica Operatória da Unifesp, intensivista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e estudioso do diagnóstico e do tratamento do trauma em doentes graves. Conhecido mundialmente por suas pesquisas na área de choque e trauma, ele conversou com CartaCapital sobre essa nova abordagem, que propõe transformar futuros médicos em cidadãos.

CartaCapital: Quais são os problemas do atendimento ao traumatizado hoje?
Luís Poli Figueiredo: Trauma é um problema de importância capital. Além de matar muitos jovens, as seqüelas são graves. Uma catástrofe. A ocorrência de seqüelas, e até de morte, pode ser reduzida se, na hora do acidente, pessoas preparadas chegarem ao local. O importante é a prevenção de outras mortes e de outros acidentes.

CC: Por que foram escolhidos alunos de medicina?
LPF: Há muitos estudantes de medicina em formação. São potenciais replicadores da informação no seu meio, em escolas, em seus bairros. Transmitirão conceitos, não de medicina, mas de cidadania, e intervenções que diminuem as conseqüências do trauma uma vez ocorrido. Então estamos inserindo o assunto na educação médica, já no segundo ano.

CC: Qual é a proposta?
LPF: É um programa grande sobre o atendimento. Se ocorrer um acidente na estrada, o estudante estará pronto para comunicá-lo adequadamente, prevenir acidentes secundários, descrever a cena, imaginar que tipo de lesão pode ter ocorrido, quem deve ser chamado para atender, que tipo de recrutamento de recursos (ambulâncias especiais, helicópteros) é necessário. Enfim, racionalizar o atendimento.

CC: A estratégia é que esse programa fique somente na Escola Paulista (Unifesp) ou que se espalhe para outros lugares?
LPF: A idéia é que toda universidade tenha um campo de ação e que exerça esses princípios.

CC: Existe algum estudo que comprova a eficiência desse programa em diminuir a mortalidade e as seqüelas do trauma?
LPF: Existem várias evidências, a partir do treinamento da ATLS, de que melhorou muito o primeiro atendimento.

CC: Vocês têm algum apoio? Quem paga por este programa?
LPF: Ninguém paga essa conta toda. Está na boa vontade tanto da universidade quanto dos bombeiros, que dispõem dos seus sábados, sem remuneração. Por isso, a nossa intenção é desenvolver um programa bem definido, com objetivos e metas muito claros, para atrair a boa vontade dentro dos princípios da responsabilidade social: a doação de verbas, fomentos e condições para que esse tipo de intervenção se dissemine. Por que uma pessoa que foi beneficiada pelo atendimento em uma estrada, que bateu seu carro de luxo e foi atendido espetacularmente pelos bombeiros, foi transportada adequadamente, não teve lesão cervical, por que não pode doar uma ambulância para o programa?

CC: O senhor é o coordenador do programa?
LPF: Eu estou coordenando com o apoio incondicional do Dr. Honório de Palma, um dos responsáveis pelo Resgate. É um cirurgião cardíaco da Escola Paulista de Medicina, eminente professor, que fez o contato direto com o alto comando do Corpo de Bombeiros. A receptividade foi espetacular.

 

 

Curso Via Aérea Difícil realizado na UNIFESP

 06/maio/2005

 

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